

Quem leu essa obra de José Saramago sabe que dificilmente seria possível uma adaptação ao cinema. Criaria um contraste entre a idéia de imaginar a cegueira e vê-la (o que fugiria dos princípios do romance). Por isso, durante muito tempo, o escritor português repudiou a idéia de ter sua obra prima adaptada para a tela grande. Como “ver” uma história em que a idéia é nos sentirmos como completos cegos?
Fernando Meirelles, diretor conhecido pelas suas bem sucedidas adaptações literárias, acabou ganhando a oportunidade de fazer o filme e, estranhamente, com todo aval de seu criador. Talvez pelos ótimos trabalhos anteriores ou então pelo fato de ser um brasileiro. Enfim, mais uma vez, a genialidade do diretor tupiniquim deu soluções ao que praticamente seria impossível. Transformando o premiado Best-seller em uma película rica em significado e imaginação.
Num congestionado cruzamento, um homem para o carro subitamente. Depois de protestos de alguns motoristas impacientes, ele é finalmente ouvido: está cego. Depois de analisar esse primeiro caso, o médico e todos os outros que estão próximos ficam infectados. Apenas a Mulher do oftalmologista (Julianne Moore) consegue enxergar. Trancafiados em um manicômio, aos poucos os problemas vitais do ser humano vão aparecendo. A higiene é precária, o convívio torna-se insuportável, os alimentos faltam e as guerras entre os pavilhões eram inevitáveis. Tudo isso sem saber que, depois da porta vigiada pelo exército já existia um mundo tomado pela “treva branca”.
Meirelles foi sábio em fazer sua câmera contar a história. As várias tomadas fora de foco e a belíssima fotografia quase preto-e-branco nos dão uma sensação claustrofóbica indispensável para o excelente resultado final. Estamos dentro daquela cegueira.
A partir daí, freneticamente somos impulsionados para dentro do manicômio, onde o visual sujo e abandonado dá o tom. Mesmo quando estão apenas os dois protagonistas, vemos um lugar sombrio, sem vida. Quando chegam as outras centenas de cegos, o local torna-se uma prisão tão realista quanto à vista em Carandiru (a única coisa que presta no filme de Babenco é essa sua direção de arte competente, diga-se). As roupas estendidas nos varais improvisados, as defecações no chão. Condições sobre-humanas mostradas com clareza. Quando somos apresentados ao mundo apocalíptico (São Paulo, uma cidade fantasma) nada deixa a dever. Ruas sujas, pessoas sem rumo, lixos, corpos, RATOS e destruição.
O Roteiro de Dan Michellar é extremamente competente no que diz respeito à fidelização do trabalho original. Dando soluções ao que seria inimaginável para um formato visual e criando ótimas pontas para nos identificarmos com alguns personagens (é o caso do Rei da Ala três, que sutilmente é mostrado como um barman no começo da projeção).
Com uma trilha sonora melancólica (reconhecemos até alguns momentos da música Céu de Santo amaro, de Flavio Venturini) e de acordes suaves, contrasta com a direção de arte pesada. Trazendo conforto mesmo quando somos tomados pelas fortes cenas de estupro ou então em alguma rebelião.
O forte elenco, comandado pela fantástica Julianne Moore, é maravilhosamente eficaz. Mark Rufallo faz um médico que, mesmo sendo o centro da razão e da organização de sua ala, ainda possui fraquezas de uma criança. Alice Braga, infelizmente com pouco espaço na trama, faz uma prostituta séria e que vê esperança em não ter que esconder suas particularidades, foi muito bem aproveitada nesse aspecto. Danny Glover, já não possui essa mesma sorte. Mesmo sendo um personagem tão interessante no texto de Saramago, o homem da venda preta acaba ficando de lado nessa adaptação. Faz uma fraca aparição como um narrador da vida fora do hospício e alguns momentos descartáveis durante todo o resto. Um pecado se tratando de um ator de grande porte como ele.
As atenções ficam mesmo por parte da protagonista. Moore sabe o peso da responsabilidade de se fazer a única mulher que realmente pode mudar as coisas. O texto bem escrito a coloca em diversas situações onde a sua expressividade torna-se mais essencial do que a fala propriamente dita (um exemplo bem claro está na hora em que ela vê seu marido transando com a prostituta, uma mistura de indignação com aceitação).
Ensaio Sobre a Cegueira é uma obra que nos faz “enxergar”, de forma impactante, a sociedade fútil em que vivemos. Reféns do consumismo exacerbado e de uma falsa noção de liberdade. O homem serve aos seus olhos, e nada mais.
Filme de Fernando Meirelles, que dividiu a imprensa em Cannes:
Sexta ele estará entre nós, pobres mortais cinéfilos.
![]() | ||
|
|
||
![]() | ||
![]() | ||
|
||