Uma Crítica: Última Parada 174

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Depois de vários filmes-tragédia rodados nas favelas brasileiras, parece que a coisa começa a dar sinais de desgaste. Mesmo sendo produções onde as competentes direções de arte se revelam magistrais a cada lançamento, as histórias começam a ficar sem a mesma atração.

 

174 desce o morro mas não sai desse dilema. Trazendo os protagonistas mais pra perto da civilização “normal”, o filme ganha ares um pouco diferentes. Porém, vários outros elementos nos colocaram dentro da diegése tão conhecida.

 

O filme conta a história de Sandro (ou Ale). Garoto que, depois de perder a mãe e fugir da casa da tia, vai para as ruas da candelária no Rio. Sobrevivente da famosa chacina que aconteceu no local, o menino se vê ajudado por um grupo de voluntários e acaba conhecendo Marisa, mulher que acredita que ele seja seu filho. Paralelamente a isso, somos apresentados a ao verdadeiro Alessandro, filho da mulher. Criado por um traficante que o tirou recém nascido do colo da mãe, ele vira um criminoso sem escrúpulos que não vê problema em apertar o gatilho mesmo quando o alvo é inegavelmente indefeso. Depois dos dois garotos se encontrarem no centro de reabilitação de menores infratores, viram parceiros e começam a cometer vários furtos. Algumas brigas após, Sandro é expulso do barraco de seu amigo e vai procurar o auxilio de Marisa com quem consegue uma relação afetuosa de mãe e filho. Uma série de decepções, erros e lembranças passadas o levam a pegar o ônibus 174. O resto já sabemos.

 

Saindo da convencional fotografia amarelada muito comum em Cidade de Deus e Cidade dos Homens, a película aposta em cores frias para mostrar a solidão de cada personagem. Seja da mãe ou dos meninos. Os barracos claustrofóbicos e sujos são impressionantes. É importante também ressaltar o lar de Marisa que, mesmo mostrando que se trata de uma pessoa claramente humilde, consegue um toque de suavidade na arrumação do local. O que traz um contraste com o barraco de Alessandro: sujo e desarrumado.

 

O roteiro de Bráulio Mantovani, como sempre, é forte em seus diálogos, trazendo um impressionante realismo no uso das gírias e dos trejeitos dos personagens. Porém, perde pontos em denunciar, gratuitamente, uma prática de extorsão de dinheiro da igreja evangélica. Simplesmente não havia motivo para tal. Ressaltando também alguns momentos de exposição, como a insistência em mostrar quem é o verdadeiro filho de Marisa (sabemos isso desde o começo, mas por algum motivo ele acha que ainda não é o suficiente).

 

Infelizmente, o competente roteirista, também esquece um fato importante: a vítima. Trazendo o filme apenas para o foco de Sandro, tirou completamente a chance de sabermos da menina que, tragicamente morreu naquele dia. A menina fica menos de 30 segundos em cena, aparecendo morta e sem atenção, mostrando rapidamente.

 

O que tira pontos da direção de Bruno Barreto. Que, mesmo com o claro foco no seqüestrador, o diretor não faz um esforço para que a vítima ganhe um pouco mais de valor.

 

Os atores fazem um trabalho esplêndido. Resultado de um treinamento que foi extremamente eficaz em outras produções e que não cansa de nos apresentar a vários talentos. Michel de Souza traz um Sandro que, mesmo como um homem, traz um olhar infantil, que torna o personagem mais vulnerável. O Alessandro de Marcelo Junior, por sua vez, é destemido e sempre traz uma sensação de “algo irá acontecer” quando está em cena. A Marisa (Chris Viana) já não consegue o mesmo desempenho dos outros garotos, limitando-se a olhares maternos de expressividade conhecida.

 

Mesmo com o ótimo trabalho técnico, Última Parada 174 não convence o espectador sobre a usa importância. Acerta em não fazer do seqüestrador um herói, mas erra em não mostrar o que aconteceu realmente naquele trágico dia.

 

Obs: A referência ao documentário de José Padilha fica mais clara ao vermos um velho conhecido: O capitão do BOPE André Ramiro (Aqui chamado de Santos). Em uma espécie de Homenagem ao diretor que teve a coragem de mostrar, pela primeira vez, a vida de Sandro antes do seqüestro. Infelizmente a mesma nos remete para fora do filme e torna a homenagem dispensável também.

 

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